Empreendimentos

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

CONSTANTINE (HELLBLAZER), JANOV E A FUGA DE SI MESMO.


“Um movimento corporal é um pensamento. Um pensamento também se expressa corporalmente”.

Assim afirmava Augusto Boal, diretor e dramaturgo, criador do Teatro do Oprimido. Por sua vez, o psiquiatra Artur Janov demonstrou de modo claro e manifesto que nossos traumas e conflitos emocionais igualmente se manifestam exaustivamente através de nosso corpo.
É simplesmente impressionante a explicação de Janov, que nos fala sobre as atitudes, hábitos e ações pelas quais o corpo vem expressar conflitos e dores muitas vezes ocultas de nós mesmos. Janov chama estas atitudes e reações do corpo de AÇÕES SIMBÓLICAS OU SUBSTITUTAS. Por quê? Porque SIMBOLIZAM ou SUBSTITUEM uma necessidade vital de nosso ser que se encontra reprimida, impossibilitada de se manifestar. Por exemplo, alguém que se sente incapaz de ser amado, pode compensar sua ansiedade comendo desenfreadamente. Neste caso, a comida simbolizaria o amor, ou seria uma tentativa de substituí-lo. 


Em certo tratamento, Janov descobriu que o ato de fumar sem parar era um efeito do trauma do paciente ter sido bruscamente desmamado quando pequeno. Aqui o cigarro estaria substituindo o seio da mãe. Em outro caso, um paciente descobriu que sua constante necessidade de sexo era uma forma de compensar a falta que sentia de atenção desde a infância. O sexo transformava-se neste caso em uma ação quase que desesperada cujo objetivo oculto era compensar a falta de atenção da qual ele não se sentia merecedor. Durante um tratamento, Janov até mesmo pediu a um paciente seu para conter sua constante necessidade de urinar, pois neste caso específico urinar era a forma como o corpo encontrava para fugir de dores e tensões ocultas. 

 
Conforme Janov, todas essas ações substitutas ou simbólicas são criadas através de um eu ou personalidade falsa que formamos. Esse eu falso surge como uma forma de proteção, escondendo nossa verdadeira essência para protegê-la de sensações e sentimentos dolorosos que permanecem ocultos no subconsciente.  


Conforme Janov, para se libertar dessa falsa personalidade que formamos e nos limita a vida, devemos nos permitir sentir as dores que estão escondidas, protegidas de nossa consciência pelos mecanismos de defesa mentais que criamos. Com sua Terapia Primal, Janov elaborou técnicas que visam aos poucos ir derrubando as defesas de cada paciente, revelando lembranças de traumas ocultos, até que o paciente possa se permitir sentir a dor central, o mal estar principal que está na origem de seus problemas. Com as barreiras de defesa da falsa personalidade derrubadas, o paciente pode então sentir a sua dor primal, expressá-la,  liberá-la, e se permitir finalmente ser ele mesmo. Uma explicação muito clara sobre este procedimento da Terapia Primal de Janov pode ser encontrada na obra O Resgate do Corpo Perdido

 
Podemos encontrar um exemplo formidável da ação simbólica ou substituta de Janov na história em quadrinhos "Anti-Horário", da revista Hellblazer nº 116 e 117.  Hellblazer traz as histórias do famoso personagem John Constantine, uma espécie de mago muito diferente, que vestindo na maioria das vezes um sobretudo, faz extremo uso de malícia e inteligência para vencer seus inimigos ou solucionar problemas difíceis.  Na história em questão, os mortos de um cemitério saem pela cidade a assombrar os vivos. 

 
John Constantine não tem a mínima ideia do porque isto está acontecendo. Usando o seu dom da sincronicidade (estar no lugar certo, na hora certa), ele acaba desvendando o mistério. Tudo tem a ver com certo ritual (muito bem explicado na história), e no hábito de um homem correr toda noite, circundando em seu trajeto o cemitério local. Aqui a história revela de forma magnífica, dentro do seu tema sobrenatural, um fato científico comprovado por Janov. Pois o que leva o personagem a correr toda a noite não é exatamente sua preocupação com a saúde e com forma física. O que o leva a correr é nada mais nada menos que um trauma, um sentimento doloroso de rejeição que ele não pode suportar. E toda a sua dolorosa amargura acaba se transformando em uma corrida constante e sem fim. 

 
No fim da história o mago Constantine consegue por fim àquela situação, fazendo o homem abandonar a sua corrida, substituto de sua carência não resolvida, fuga de sua dor interior. “Você precisa parar de correr”, diz o mago Constantine. “Olha, tem uma espécie de problema. É sobre sua esposa, né?” 


Constantine diz para o homem que ele deve voltar para casa e perguntar à esposa porque ela nunca foi ao funeral do pai. Ou seja, a falta de atenção da esposa não era porque ela não amasse o marido. Tudo estava relacionado ao trauma dela com o pai já falecido. A solução estaria em o homem falar com ela sobre esse problema e ajudá-la a superá-lo. A verdade era algo aparentemente simples. Sua esposa apenas não lhe dava atenção porque estava presa ao seu próprio trauma, à sua própria dor. Mas o falso eu que o homem formou em sua vida não o deixaria facilmente procurar sua esposa e buscar sua afeição, pois estava fortemente programado a fugir de toda tentativa de ser amado, o que, na lógica do seu trauma, o protegeria da dor da rejeição. Assim sendo, simples explicações não seriam suficientes para que o homem prontamente deixasse de lado aquela corrida e voltasse para casa, para a esposa, onde pairava seu maior medo: a rejeição. Para convencê-lo completamente, Constantine não precisou de uma prolongada sessão de Terapia Primal, como o faria Janov. O mago simplesmente hipnotizou o homem durante dez minutos. Como consequência, o corpo deste último reagiu, tentando ainda escapar e se autoproteger  do  possível sofrimento que o estaria esperando,se enfrentasse de frente seus problemas.  O homem urinou-se duas vezes durante este processo. Este fato é muito interessante, pois lembra a experiência de Janov, quando este pediu a um paciente que não urinasse, já que esta reação física era uma forma do corpo continuar fugindo das lembranças e da dor do trauma. Enfim, na história, após o hipnotismo, o homem retorna para sua esposa. “Eu o levei ao fim de sua interminável maratona”, diz o John Constantine. “O resto depende dele.” 
Caso você queira conferir esta história "Anti-Horário" na íntegra, transfira os quadrinhos para o seu computador, acessando  logo abaixo:  

ANTI-HORÁRIO - PARTE UM.

Se quiser saber mais detalhes sobre o doutor Janov e seu espantoso trabalho da Terapia Primal, acesse abaixo:

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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

ANTONIN ARTAUD E A POSSESSÃO DO SOCIAL




         O teatrólogo francês, Antonin Artaud, já alertava que o corpo do homem é um corpo envenenado; e o que estaria envenenando-o seriam as ideias, as noções de comportamento, a moral do que é certo ou errado, toda uma carga que a família e a sociedade lançam desde cedo sobre o indivíduo, levando-o a um estado induzido, sem dar-lhe a chance de pensar e decidir por si mesmo.  Para Artaud, o conjunto das ideias e sentimentos negativos de determinado grupo social são como uma força viva que tende mesmo a se voltar violentamente contra aqueles que não seguem os mesmos padrões. (1) Todo um campo vibracional de ideias e preconceitos do corpo social agiriam assim como um demônio coletivo, uma egrégora sombria a pressionar a mente dos que desejam mudar e se libertar das convenções. Nas palavras do próprio Artaud, neste processo, ocorre uma espécie de possessão do corpo social sobre a pessoa. O indivíduo absorve em seu corpo e mente uma série de oposições, cujo objetivo final é forçá-lo a desistir da mudança e continuar nos antigos padrões, ou então desestabilizá-lo, enfraquecê-lo, o que poderá levá-lo em muitos casos à ruína e à morte. Um dos exemplos mais notórios seria o pintor Vicent Van Gogh, que – conforme Artaud -, não se suicida, mas é suicidado ao ser agredido pela pressão do social. Em seu livro "Van Gogh, o suicidado pela sociedade", Artaud afirma categoricamente que o corpo social, repressor e violento, invadindo o corpo de Van Gogh, leva-o à morte.

            “E nesse delírio, onde está o lugar do eu humano?
           Van Gogh o buscou durante toda sua vida com uma singular energia e determinação;
           e ele não se suicidou num acesso de loucura, de desespero por não conseguir encontrá-lo;
           mas, pelo contrário, ele havia conseguido, tinha descoberto o que era e quem era quando a consciência coletiva da sociedade, para puni-lo por ter rompido as amarras,
            o suicidou.”(2)              
            No final do seu livro Artaud ainda lança-nos esta inquietante sentença: "... como se não fôssemos todos, como o pobre Van Gogh, suicidados pela sociedade!"     


            Referindo-se aos motivos de sua viagem ao México, onde vivenciou o ritual místico e cerimonial do peiote – planta alucinógena - entre os índios Tarahumara, Artaud afirma que não se é livre porque “cem pais-mães pensaram e viveram por nós, antes de nós; e o que poderíamos em um dado momento, na idade da razão, encontrar por nós mesmos, a religião, o batismo, os sacramentos, os rituais, a educação, o ensino, a medicina, a ciência se apressam em nos tirar.” (3) Artaud sonha, anseia pela total liberdade do nosso corpo. Pois é este corpo doente, possuído pelo social, que paralisa o espírito. E propõe, para livrar o corpo de seus padrões congelados, que este seja bombardeado por todos os lados pelos mais incomuns efeitos de um teatro ritualístico. Chamou o seu projeto de teatro da crueldade. Esta crueldade ele definiu como uma atitude rigorosa, sem meios termos, porque necessária.(4) Pretendendo alterar completamente a prática teatral que predominava na sua época, idealizou este seu teatro, em que todos os elementos (espaço, luz, figurino, sons, atores), deveriam atingir os espectadores por todos os meios possíveis em seus sentidos físicos, perturbando-os em seus corpos, para, em conjunto com suas mentes, levar todos a uma compreensão, a uma vivência impossível de se chegar apenas de um modo racional.(5)  

              Artaud defendia que o teatro em seu aspecto mágico-ritual aponta um meio de o homem refazer sua anatomia, ou seja, recuperar o seu corpo perdido. Com este corpo recuperado, o homem então poderia causar mudanças, “tornar-se senhor daquilo que ainda não é” e fazê-lo nascer.(6) “Quem sou eu?”, indaga o artista francês em um poema. "De onde venho?" Ele mesmo responde: "Sou Antonin Artaud / E basta dizê-lo, / Como sei dizê-lo, / Imediatamente / Vereis  o meu corpo atual / Voar em estilhaços / E em dois mil aspectos notórios / Refazer / Um novo corpo / Onde nunca mais / Podereis / Esquecer-me."(7) 
              

Este texto é um resumo do original do autor. 
Para mais detalhes sobre o original, confira abaixo.
           


altDesde a muito o ser humano tem perdido o contato com o seu corpo, com as suas reações físicas e emocionais mais vitais. Contudo, surgiram aqueles que ousaram levantarem-se contra todo o tipo de preconceitos, e lutaram com todas as suas forças para resgatar o corpo humano, para curá-lo, restaurando a sua conexão com a mente e o espírito. O Resgate do Corpo Perdido é uma verdadeira aventura de descobertas, uma viagem pelo trabalho e pelas ideias de importantes artistas e terapeutas QUE idealizaram seus próprios métodos revolucionários. Artaud, Boal, Reich, Moreno, Janov, Bert Hellinger. Teatro, terapia corporal, psicanálise. Os vários caminhos e os obstáculos de uma fascinante jornada para a cura da alma em conjunto com o corpo. Uma obra de Dan Thoth! Venha embarcar em incríveis descobertas, ACESSANDO AQUI!

                                                                
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

(1) ARTAUD, Antonin. Van Gogh: o Suicidado Pela Sociedade. In: WILLER, Cláudio (Org.). Rebeldes e Malditos: Escritos de Antonin Artaud. 1. ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 1983, p. 134.
(2) ARTAUD, Antonin. Van Gogh: o Suicidado Pela Sociedade. In: WILLER, Cláudio (Org.). Op. cit., 1983, p. 135.
(3) ARTAUD, Antonin apud LISN, Daniel. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999, p. 97.
(4) ARTAUD, Antonin. O Teatro e seu Duplo. 1. ed. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1993, pág. 76.
(5) ARTAUD, Antonin. Op. cit., 1993, pág. 78.
(6) ARTAUD, Antonin. Op. cit., 1993, pág. 07.
(7) ARTAUD, Antonin. (tradução de Aníbal Fernandes). Eu, Antonin Artaud.Lisboa: Edições Hiena, 1988, p. 111.





terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Alan Moore, Palavra e Vertigem em Ritos Mágico-Teatrais



     
         A Palavra-Arte. Música. Magia. Ritual. Teatro. Alan Moore, premiadíssimo roteirista inglês de histórias gráficas, viria a unir esses elementos após um acontecimento muito particular em sua vida. A propósito, ele mesmo conta em certa entrevista

          “Cerca de dez anos atrás, em 1993, quando eu fiz 40 [anos], subitamente decidi anunciar que havia me tornado um mago; só pra me divertir um pouco, realmente. Mas todo mundo me levou a sério. Então eu tive de realmente fazer alguma mágica.”

           Moore define magia: é a ciência de manipular símbolos (palavras, imagens etc), visando alterar a consciência. Considera um Grimório, livro de encantamentos, uma extravagante estrutura de gramática. Nesse sentido, a arte da escrita, assim como qualquer outra forma de evocar sensações, alterar pensamentos, provocar sentimentos, tornam-se recursos encantatórios ou mágicos.

           Decidindo-se aprofundar na magia, Alan Moore percebeu que a forma ideal para explorá-la na prática seria “um tipo de mídia mista”.  Unindo-se ao guitarrista David J. e ao músico Tim Perkins, o mestre dos quadrinhos nomeou o seu grupo de O Grande Teatro Egípcio das Maravilhas, e passou a apresentar vários espetáculos, performances teatrais, nas quais a  palavra, o movimento e a música uniam-se e se completavam mutuamente.

          David J., músico e amigo do escritor, relata em entrevista para o jornal L.A. Weekly que, na criação do primeiro espetáculo, “A Lua e a Serpente”, o texto veio primeiro, com Alan Moore escrevendo a narrativa; e somente depois, em estúdio, se adicionaram outros elementos (efeitos sonoros, a iluminação, efeitos de palco, etc). Alan recitou seu próprio texto com uma voz trovejante durante o espetáculo. David, trajando uma máscara branca, fazia gestos rituais, que acompanhavam a narração. É ele, o próprio músico, que comenta:

           “Foi um tremendo sucesso, como uma peça de teatro mesmo. Até penso que estava de alguma forma conectada com as ideias de Antonin Artaud, com o seu ‘teatro da crueldade’. A audiência foi totalmente envolvida e estou certo que, de alguma forma, quebramos alguma barreira (...) Levitamos os espectadores, simultaneamente perturbando-os e liberando-os, numa senhora experiência, para eles e para nós.”  

       O teatólogo francês Antonin Artaud, citado acima pelo músico, pretendia quebrar a barreira entre o palco e plateia; fazer com que esta última fosse parte integrante do acontecimento teatral, que deveria ser como um ritual de rigorosa purificação. Artaud defendia o que chamava Teatro da Crueldade. Ele mesmo explicou que com crueldade não queria dizer exatamente violência ou sangue, mas sim rigor, uma espécie de ação decisiva alcançada pelo impacto de meios teatrais. O público deveria ser envolvido, arrastado irresistivelmente pelo espetáculo, sem poder evitar ou escapar, de modo que corpo e mente sofreriam uma quebra dos seus bloqueios e repressões.            




          Esse intento de Artaud provavelmente possa ser melhor compreendido por meio de uma performance que Alan Moore e seu grupo realizou em Chicago. A própria canção do espetáculo tinha um nome muito sugestivo. Chamava-se “Antonin Artaud”. Ainda em entrevista para o jornal L.A. Weekly, David J. narra também esse acontecimento. Segundo o músico, em entrevista a uma rádio, o público foi convidado a fazer parte do espetáculo, a levar consigo elementos como paus e barras de metal, ou seja, o que fosse capaz de produzir percussão. Já no início da apresentação, a audiência deparou-se com um efeito espantoso e ritualístico: Alan e seu grupo apresentavam-se sem camisa, somente de calça, com pinturas sensíveis à luz ultra-violeta. David descreve que o público participou normalmente, utilizando os elementos de percussão. Contudo, após um tempo, percebia-se um clima de receio geral, e mesmo medo. A plateia, parecendo entrar num paroxismo, começou a bater com uma força diferente os bastões de metal e de madeira. Era surpreendente o modo como todos se soltavam; atingiu-se um nível praticamente de histeria, em que o público gargalhava incontrolavelmente, se contorcia e delirava. Enfim, David termina sua narrativa. A atmosfera em torno da plateia teria começado ficar mais sombria, para somente depois se atenuar, voltando a seu tom anterior, mais celebratório. 

      Entendeu-se pelo relato de David que o espetáculo participativo envolveu gradativamente a consciência do público, até levá-lo a um momentâneo choque interior, fazendo grupos de sensações e sentimentos serem dramaticamente liberados. Não houve escapatória ou fuga do acontecimento, mas - ao contrário -, uma total entrega. A apresentação firmou-se como uma experiência transformadora, impossível de ser ignorada. Ou de total rigor, como o queria Artaud.        





          Com essas performances teatrais, nota-se que Alan Moore chega a um supremo ápice da utilização da Palavra. Partindo dos quadrinhos, onde a encantação da letra unia-se a imagem para alterar consciências; levar o leitor a um novo espaço-tempo fora do comum, a palavra-arte de Moore, agora pela própria voz do escritor, se apresenta ao vivo, mistura-se a outras palavras, na verdade outros códigos mágicos de escrita, que são propriamente teatrais (a iluminação, o movimento, a música...), todo esse conjunto sensível, uma formidável orquestra da qual a única e verdadeira palavra salta, invisível e elétrica; e o ritual enfim permite que essa palavra se propague, flamejante, que tome conta dos corpos, das mentes, para despertar verdades escondidas, liberá-las da alma, das suas profundidades ocultas, de outro modo inalcançáveis.  

ALGUMAS PALAVRAS DO PRÓPRIO ALAN MOORE: 

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A PALAVRA CRIATIVA E ENCANTATÓRIA DE ALAN MOORE


































–  Infância, primeiras dificuldades, os roteiros iniciais...

         Moore nasceu surdo do ouvido direito e enxergava pouco com a vista esquerda. Em sua primeira casa não havia banheiro ou gás de rua. Seu pai era o funcionário de uma cervejaria, Ernest Moore, e sua mãe, Sylvia Doreen, uma tipógrafa. A infância e adolescência de Moore foram influenciadas pela pobreza – não só da família – mas também da região em que morava. Ao 17 anos, ele foi expulso da escola pelo uso de drogas. Uma carta do diretor, endereçada a todas as outras escolas e universidades, garantiu que nenhum outro centro educacional o aceitasse depois disso. Sem poder estudar, Alan trabalhou em um matadouro; depois passou a limpar banheiros em um hotel de sua cidade. As perspectivas de sua vida não eram das melhores. Em 1977, já casado, Moore percebeu que precisava encontrar uma atividade que desse sentido à sua existência. Começou a colaborar com jornais e revistas locais, escrevendo e desenhando tiras de humor. Percebendo que não se sairia muito bem desenhando, resolveu focar seus esforços em apenas escrever. Sábia decisão. Trabalhando a partir de 1982 para a revista Warrion, Moore criou roteiros que lhe garantiram o prêmio britânico de Melhor Escritor de Quadrinhos em 1982 e 1983. Suas atividades chamaram a atenção da DC Comics, nos Estados Unidos, e a editora o contratou para escrever as histórias da revista Swamp Thing (Monstro do Pântano no Brasil), cujas vendas na época estavam caindo. Nas mãos de Moore, a revista, como por mágica, transformou-se em um sucesso estrondoso. Swamp Thing era produzida em uma tiragem de 17.000 cópias/mês. Este número aumentou simplesmente para mais de 100.000 cópias. Alan Moore se firmava cada vez mais como roteirista, inserindo qualidades literárias em um gênero que não era conhecido por tal distinção, o que fomentou uma verdadeira revolução e transformação na Banda Desenhada. Diversas e inovadoras obras em quadrinhos foram surgindo e – o que antes não acontecia – conquistavam espaço em lojas especializadas e mesmo em livrarias.  


Criatividade espantosa: reformulando antigos personagens
























            “Tenham ideias próprias. Não é tão difícil.”

            Com estas palavras, Moore aconselha os artistas a não imitarem formas e temáticas já consagradas apenas buscando uma fórmula exata para o sucesso, mas a inovarem.
            E comprovadamente, Moore segue seu próprio conselho. Ele já demonstrou sua inovação e criatividade, apoderando-se de personagens fracos e recriando-os, dando-lhes nova vida, impregnando suas histórias com um alto grau de interesse, antes inexistente.
            Já havia começado esta experiência com o Capitão Bretanha, personagem cujas histórias escreveu para a editora inglesa Warren. O mesmo fez com Miracleman. E esta talvez tenha sido sua maior façanha. Pois Miracelman era inspirado no Capitão Marvel, que por sua vez era inspirado no Super-Homem. Ou seja, Moore inovou e transformou em enorme sucesso o que era nada mais, nada menos que o plágio de um plágio.



















      
           Inspirando-se inicialmente na ideia do super-homem proclamada pelo filósofo Friedrich Nietzche, Moore utilizou Miracleman para explorar as consequências políticas e sociais da existência de um ser com poderes supremos perante a sociedade.


























         
            Com a série do Monstro do Pântano (Swamp Thing, nos EUA), Moore reformula esse personagem de forma quem sabe ainda magistral do que em Miracleman. Isso acontece em Swamp Thing já na segunda história do roteirista, Lição de Anatomia.       

















Um cientista disseca o corpo do Monstro do Pântano, aparentemente morto, para descobrir porque certa fórmula secreta transformou o cientista Alec Holland naquele ser monstruoso. Em um clima crescente de mistério e suspense, descobre-se que Holland nunca foi transformado em nada, mas morreu na explosão que o jogou em um pântano. Com base em uma experiência científica real citada na história, Alan Moore leva o leitor, junto com os personagens, à descoberta espantosa de que o chamado Monstro do Pântano nunca foi o que todos pensavam até então. 








Em 1986, Moore trouxe à existência antigos personagens com novos nomes e aparência, concebendo Watchmen, uma obra que ganhou vários prêmios Eisner, considerado o Oscar dos Quadrinhos. O argumento de Moore recriava os super-heróis de forma extremamente humana e convincente, colocando-os no ano de 1985, no contexto delicado da Guerra Fria entre os EUA e a Rússia, com a eminente ameaça de uma guerra nuclear. A obra recebeu uma honraria especial no prêmio Hugo de ficção científica, que se voltava até então apenas à literatura tradicional. Watchmen foi também reconhecida pela revista Time, que a considerou um dos 100 romances mais importantes do século 20. Com o passar do tempo, estudiosos viriam a escrever artigos e mesmo livros sobre essa criação de Moore, devido às influências científicas e filosóficas que a mesma contém.
            Alan Moore também produziria outras obras fundamentais, como, por exemplo, V de VingançaDo Inferno, PrometheaLost Girls (Garotas Perdidas), e o livro de contos “A Voz do Fogo”. 
 
Uma escrita de poderosa encantação.
           
Alan Moore já afirmou que a magia é a arte de modificar a consciência através de uma escrita de símbolos. Em seus trabalhos nas histórias em quadrinhos, o roteirista prova que isto é verdade. Suas palavras, principalmente na série Monstro do Pântano, mas também em outras obras, criam uma poesia magnética dentro da prosa. Desde que o leitor se permita, as palavras de Moore vão de fato alterar sua consciência, levá-lo à um tempo-espaço tecido pelos fios das mais diversas e inesperadas sensações. A narrativa de Moore, enriquecida por roteiros inteligentes, une o tema do fantástico com problemáticas sociais, exibindo conhecimentos culturais, mágicos e científicos. Neste conjunto, a palavra enfeitiçada de Moore seduz o leitor a provar todo um mundo que lhe é apresentado de uma maneira simplesmente fora do comum. Os fios condutores da narrativa seduzem a imaginação, levando-nos ora para a perspectiva dos personagens, ora para a do narrador; as metáforas e signos de linguagem, em perfeita sincronia com os desenhos, induzem-nos a luzes e cores; convencem-nos a praticamente tocar, cheirar e sentir a orquestra de um universo perfeitamente apresentado. As histórias do Monstro do Pântano que Alan produziu foram denominadas pela editora DC como uma espécie de horror ou suspense sofisticado. A verdade é que qualquer horror ou suspense nesta série não se impõe com força extrema, mas sim diluído e às vezes até sobrepujado pelo poder extremamente lírico da descrição que modela a narrativa.

            Abaixo, dois exemplos da  palavra poética e alquímica de Alan Moore.   

         Prólogo:
       Enquanto a sua amante dorme, a criatura do pântano senta-se na penumbra rósea e contempla o seu território. Ao leste, jornaleiros cansados de caminhar pelas ruas jogam seus últimos jornais em algum beco sujo, contando aos distribuidores que já terminaram suas entregas. As manchetes moribundas dançam sob um tépido vento, amarantos monocromáticos deslizando através da noite jovem.
       Ele observa as folhas de notícias se debaterem como gigantescas mariposas aleijadas pelo próprio peso, golpeando lentamente as árvores negras. Suas páginas ostentam tragédias obsoletas e faces pretéritas... toda a cuidadosa neurose de um mundo ao qual ele não mais pertence.
      Atrás de si, sua amante murmura três sílabas oníricas, mas não desperta. O pântano envolve ambos. É o cosmo particular dos dois, onde os problemas do mundo externo aparentam ser apenas conversas sussurradas de homens insanos.
         (O Monstro do Pântano, Cara de Fogo, pág. 01)
























                               Ritual da Primavera
            Uma história de espantoso lirismo sobre o romance de uma humana com um elemental da natureza. 

sábado, 11 de dezembro de 2010

FORRESTER - A ESCRITA QUE NASCE DO CORAÇÃO



        Encontrando Forrester. Um filme magnífico, belo e profundo, atingindo mistérios da criação pela palavra. 

        Um jovem estudante negro, de família pobre, ousa alcançar o seu sonho: escrever.
        Ele tem o dom dentro de si; possui o entusiasmo – mas não a experiência. E necessita de um guia para que sua alma não se contamine e não se perca em regras rígidas - veneno do mundo que detém a criatividade; precisa de um mentor que o fortaleça; que lhe dê esperanças, para que não desfaleça ante os rancores e a inveja alheia que enfraquece a vontade.
        Inesperadamente, o Universo vem lhe trazer esta dádiva; este mestre que irá ajudá-lo em um mundo onde crescem – tão ásperas – as dificuldades.
        O nome desse mentor, interpretado pelo ator Sean Connery: Forrester. Ele é um verdadeiro mestre das palavras. Sabe criá-las; estruturá-las perfeitamente e dar-lhes vida. Sua única obra – um romance – foi e continua sendo um sucesso estrondoso; um livro continuamente lido por um surpreendente número de pessoas. Contudo, após esta única publicação, segue-se um misterioso silêncio. Totalmente anônimo, escondido de olhares curiosos, o talentoso escritor vive sozinho em seu apartamento, entre suas próprias palavras e anotações, como que à espera de algo.  E esse algo surge na figura de um jovem estudante negro. Os dois se conhecem; tornam-se aos poucos amigos.    
        É nesta crescente amizade que as lições da escrita se desenvolvem, permitindo ao jovem estudante descobrir as chaves que abrirão de vez as portas de sua criatividade. Com a ajuda de Forrester, o rapaz domina a palavra; aprende a transformar a escrita em símbolo vivo, capaz de captar a essência do sentimento, e atingir profundamente a alma.    
        Seguem-se aqui pequenos trechos do filme, memoráveis em sua beleza, em que mestre e aluno adentram os mistérios da escrita e da criação.
        E a palavra, trazendo o sentir do mais profundo, do mais íntimo – para a letra e para além da letra a alma mostra.